segunda-feira, 7 de março de 2011


Que pode uma criatura senão, 
entre criaturas, amar? 
Amar e esquecer, 
amar e mal amar, 
amar, desamar, amar? 
Sempre, e até de olhos vidrados, amar? 

Que pode, pergunto, o ser amoroso, 
sozinho, em rotação universal, senão 
rodar também, e amar? 
Amar o que o mar traz à praia, 
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha, 
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia? 

Amar solenemente as palmas do deserto, 
o que é entrega ou adoração expectante, 
e amar o inóspito, o áspero, 
um vaso sem flor, um chão de ferro, 
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina. 

Este é o nosso destino: amor sem conta, 
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, 
doação ilimitada a uma completa ingratidão, 
e na concha vazia do amor a procura medrosa, 
paciente, de mais e mais amor. 

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa 
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita. 

( Carlos Drummond ) 

1 comentário:

  1. Não sei se é fruto da minha presença aqui, mas andas a ficar com bom gosto nos poemas que aqui postas/colocas/metes/pões.
    Se deixasses de ouvir a banda sonora dos MCA, ui , isso sim , era genial , uma grande demonstração de bom gosto. :P

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